Rush: revelado o responsável por colocar a banda na abertura de 'Profissão Perigo'
Ex-funcionário da TV Globo, responsável pela trilha sonora da série no Brasil, desvenda o processo que uniu o rock progressivo à televisão

Julio Fernandes, ex-funcionário da TV Globo, revelou ter sido o responsável pela escolha da música Tom Sawyer, da banda canadense Rush, para a icônica abertura da série televisiva Profissão Perigo, conhecida internacionalmente como MacGyver.
A revelação, que chega quatro décadas após a estreia da série no Brasil, esclarece um dos mais duradouros mistérios da cultura pop nacional e contextualiza como a faixa do álbum Moving Pictures, de 1981, se tornou um hino para uma geração de telespectadores e impulsionou as vendas da banda no país.
A conexão entre o rock progressivo e a série de ação surgiu nos anos 1980, quando Fernandes, então atuando na produção de jingles e recentemente chegado à emissora, foi incumbido de encontrar uma trilha sonora impactante para a nova aposta da Globo.
A abertura original da série foi considerada "sem força" por diretores da época, como Boni, que buscavam algo que realmente capturasse a atenção do público. Foi nesse contexto que Fernandes, um entusiasta do Rush, teve a ideia de utilizar Tom Sawyer, enxergando na energia da música a "porrada" necessária para a abertura.
A Gênese de um Impacto Cultural
A sugestão de Julio Fernandes não foi imediatamente aceita, mas sua persistência levou à apresentação do disco de vinil com a música à gerência. A faixa, que abre o seminal álbum Moving Pictures, foi gravada em 1981 e é uma das composições mais reconhecíveis do trio Rush, formado por Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart, com letras de Pye Dubois. Apesar de sua popularidade global, a banda não ficou completamente satisfeita com a gravação original da faixa, com Geddy Lee expressando que "não haviam capturado o espírito da música" na época.
Com a aprovação da diretoria da Globo, o processo de adaptação para a televisão brasileira exigiu uma abordagem artesanal, comum na era analógica. Um trecho do vinil foi gravado em um gravador de rolo e editado manualmente para se encaixar nos poucos segundos da abertura da série. Essa "alquimia sonora" transformou um hino do rock progressivo em uma assinatura televisiva inesquecível, demonstrando a capacidade da curadoria musical em criar ícones culturais que transcendem os formatos originais.
A repercussão da escolha de Tom Sawyer foi monumental no Brasil. A popularidade avassaladora de Profissão Perigo, impulsionada por essa abertura marcante, gerou um efeito dominó nas vendas do Rush no país. O impacto foi tão significativo que, anos depois, o próprio Geddy Lee comentaria o fenômeno brasileiro em sua autobiografia, My Effin' Life, reconhecendo o poder da televisão como uma plataforma inesperada de divulgação musical e cultural, especialmente em mercados como o brasileiro.
A narrativa de Fernandes destaca como uma decisão aparentemente pequena pode moldar o gosto musical de uma nação e solidificar o legado de uma banda em um território distante. Em uma era dominada pelo consumo fragmentado e plataformas de streaming, a história de Tom Sawyer em Profissão Perigo ressoa como um testemunho da capacidade da televisão de criar momentos culturais unificadores. A revelação não é apenas uma curiosidade histórica, mas um lembrete do poder da música e de como objetos musicais, como o disco de vinil, podem ser fontes de inspiração e transformação, mesmo em contextos inesperados.
O álbum Moving Pictures, que celebra mais de quatro décadas de existência, continua sendo um dos trabalhos mais aclamados do Rush, frequentemente relançado em diferentes formatos, incluindo vinil, CD e edições de luxo. A banda, que encerrou suas atividades após a morte de Neil Peart em 2020, deixou um legado inegável no rock progressivo, e a história de sua conexão com a televisão brasileira é apenas mais uma prova da influência duradoura de sua música.
