'The Works': o álbum que recolocou o Queen no topo do rock
Retorno ao rock, hits globais e estádio lotado marcaram a era do disco que misturou funk e disco music sem abandonar suas raízes

Percebendo que a presença de funk e disco music nos trabalhos anteriores havia confundido parte do público britânico e americano, o Queen decidiu recalibrar sua direção sonora. O décimo primeiro álbum de estúdio da banda representou um retorno mais direto ao rock. Ainda assim, o grupo não abandonou completamente as influências rítmicas que haviam marcado os discos The Game e Hot Space, preservando uma mistura de estilos que continuava ampliando o alcance da banda.
O título do projeto sugeria algo amplo e definitivo. The Works carregava um duplo significado: na gíria britânica, indicava algo que funciona perfeitamente; ao mesmo tempo, transmitia a ideia de que o grupo estava entregando tudo o que tinha naquele momento da carreira. Era uma declaração direta de força criativa e também um símbolo de dedicação total ao trabalho.
A produção deste álbum do Queen aconteceu ao longo de seis meses, entre o verão de 1983 e o rigoroso inverno de 1984. As primeiras gravações começaram no Record Plant, em Los Angeles. Depois disso, a banda seguiu para o Musicland Studios, em Munique, onde trabalhou com Reinhold Mac e David Richards. As sessões realizadas na Alemanha foram concluídas em janeiro de 1984.
Queen: novo tecladista adicionou novas camadas ao som do grupo
Durante esse período, o Queen passou a contar com o tecladista canadense Fred Mandel, integrante da banda de turnê. Seu domínio de teclados analógicos e digitais acrescentou novas camadas ao som do grupo. Ao mesmo tempo, a banda assinou contrato com a Capitol Records nos Estados Unidos, após a percepção de que a Elektra já não promovia o grupo com a mesma força, especialmente depois que Jac Holman assumiu um novo cargo na Panavision. No final daquele ano também foi lançado o single natalino Thank God It's Christmas.
Antes mesmo de iniciar oficialmente o álbum, o Queen recebeu um convite para compor a trilha sonora do filme The Hotel New Hampshire, dirigido por Tony Richardson. No entanto, as experiências anteriores conciliando Flash Gordon e The Game, além do desejo de Freddie de gravar um trabalho solo e do interesse de Brian em projetos paralelos após colaborar com Eddie Van Halen, fizeram com que a banda recusasse a proposta.
Mesmo assim, o empresário do Queen, Jim Beach, acabou coproduzindo o filme. Freddie, que havia lido o romance de Irvine, compôs a música Keep Passing The Open Windows, inspirada em um verso marcante da obra literária.
O primeiro grande destaque do álbum foi Radio Ga Ga, escrita por Roger Taylor. A faixa combinava synthpop e rock de estádio e dialogava com a crescente cultura da MTV, lembrando a visão pop apresentada pelo Buggles em Video Killed The Radio Star. A programação de vocoder e linhas eletrônicas criadas por Mandel usando equipamentos Roland ajudaram a moldar o som final, enquanto Mercury contribuiu fortemente para o arranjo.
O disco também trouxe o uso de baterias eletrônicas como Oberheim OBX-a e Linn LM2, além do formato de single em vinil de 12 polegadas, incluindo uma versão remixada com 6:53 de duração. A canção Radio Ga Ga se tornaria um momento icônico para o Queen durante o Live Aid, no Estádio de Wembley, quando 72 mil pessoas acompanharam o refrão com palmas. O single chegou ao público em janeiro de 1984.
Outras faixas reforçaram o peso do disco. Brian assinou Tear It Up, com energia semelhante aos primeiros álbuns da banda, especialmente Queen II. Já It's A Hard Life, composta por Mercury, possui ecos de Bohemian Rhapsody e referência à ópera Pagliacci, de Leoncavallo, com colaboração lírica de May.
Entre outros destaques deste álbum do Queen estão Man On The Prowl, inspirada no estilo rockabilly que lembra Crazy Little Thing Called Love, com guitarra Fender Stratocaster evocando Presley. Já Machines ou Back To Humans apresenta atmosfera eletrônica influenciada por Bowie em Berlim, com produção de Mack e uso do sampler Fairlight, além de vocais processados de Taylor.
Outro grande sucesso foi I Want To Break Free, composta por John Deacon. A canção ganhou notoriedade com o videoclipe inspirado na novela britânica Coronation Street, dirigido por David Mallett e produzido por cerca de 100 mil libras. Apesar do tom humorístico do vídeo, a faixa apresentou estrutura musical complexa e uma versão estendida de 12 polegadas. O solo de sintetizador executado por Mandel foi tocado em um teclado Roland Júpiter 8.
No repertório também aparecem Keep Passing The Windows, com Mercury ao piano, e o poderoso hard rock Hammer To Fall, composto por May. Sobre a presença de palco de Mercury, Bowie resumiu sua capacidade dizendo: "era um homem que conseguia ter o público na palma da mão".
O álbum ainda trouxe a sensível Is This The World We Created…?, escrita por Brian e Freddie após reportagens sobre fome na África. A gravação utiliza apenas o violão Ovation de May e voz de Mercury, antecedendo eventos como Live Aid e Band Aid.
Com o sucesso nas paradas internacionais, o Queen voltou à estrada e fez sua estreia italiana no Festival da Canção de San Remo, em fevereiro de 1984. Enquanto isso, os fãs tiveram tempo para absorver o impacto de The Works, já que o próximo álbum da banda só chegaria mais de dois anos depois.
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